4 de setembro de 2016

Carta de um Padre aos seus Coroinhas

Meu filho, antes de entrarmos nos pormenores, eu quero que você saiba o porquê de termos acólitos. Pense um pouco… Será que eu preciso de você para trazer o pão, a água, o vinho para o altar? Não. Eu poderia fazer isso eu mesmo. Será que eu preciso de você para trazer os vasos sagrados para o altar? Não. Eles poderiam já estar perto de mim, sabia? Será que eu preciso de você para levar as velas, a cruz, segurar o Missal? Quer que eu seja sincero? Não… Não preciso de você para tocar o sino, lavar minhas mãos, acompanhar-me na comunhão… Eu poderia fazer isso tudo sem você.

Pode ser que, para você, não seja nada agradável ouvir isso. Pode ser que você dedique muito tempo para esse serviço, estude e se esforce para bem cumpri-lo, e agora o padre lhe diz que não precisa de você?! São palavras difíceis. Mas deixe-me lhe explicar.

Você não foi chamado por Deus para ser útil. Você foi chamado para me ajudar a conduzir o ato mais importante da Terra: A adoração a Deus. Se você conseguir compreender isso, todo o resto que precisa entender virá naturalmente. Você veja, todos nós trabalhamos juntos para levar o povo de Deus à adoração a Deus – não sou apenas eu, você também é responsável. Entenda isso, e você perceberá que todas as outras coisas que você faz são secundárias. Eu confio em você para algo muito maior, mais nobre, mais bonito e verdadeiro.

Nossa adoração na Terra reflete a Adoração Eterna no Céu. O que fazemos aqui, no Santo Sacrifício da Missa, é uma espécie de eco do que se passa no Céu. Lá, o Cordeiro de Deus é oferecido em um único sacrifício atemporal e eterno. Lá, os santos e os anjos adoram ao redor do Trono do Cordeiro. Lá, não há sol, lua ou estrelas, pois o próprio Cordeiro é a Luz. O altar que você vê aqui é um reflexo do altar que existe lá. O sacerdote é um reflexo de Cristo, sumo sacerdote, e quem é você?

Você, coroinha, representa e reflete na Terra todo o exército celestial.
Isso mesmo, você representa e reflete todos os santos e todos os anjos. E não há mais ninguém que possa fazer isso, além de você. Pense um pouco nisso. Não são meras palavras. Pense na honra e na responsabilidade que isso envolve.

Uma vez que você representa o exército celestial de santos e anjos, eu quero que você se comporte como tal. Claro, eu sei que você não é ainda um santo. Você briga com os seus irmãos. Alguns de vocês são provocadores e outros são covardes. Você mente, sente preguiça, fica com raiva, tem maus pensamentos e talvez más ações. Você desobedece seus pais e, às vezes, é egoísta e cruel. No entanto, você tem um papel a desempenhar na Divina Liturgia, porque apesar de tudo isso, você é chamado para refletir algo muito maior. Você é chamado a refletir a santidade de todos os que estão no Céu, apesar de todas estas inclinações negativas. E se, ouvindo isso, você é golpeado com um sentimento de temor pelo que eu estou pedindo de você, pense como eu, sacerdote, me sinto, porque eu sou um pecador como você, e eu sou chamado a algo ainda maior: Ser o próprio Cristo para as pessoas.

Você é chamado ao que milhares de Santos suspiraram ter a vida inteira. Você, mais do que nenhum outro leigo, é chamado a ser imitador de Cristo. Você, ao estar mais perto do altar que todos os demais, também é o que recebe mais graças de todos.

Já que você já sabe a verdade, eis o que vamos fazer. Em primeiro lugar, quando você entrar na igreja, você vai imediatamente colocar sua batina. Ela é sua roupa de trabalho. Servir no templo do Senhor é ser como o menino Samuel que serviu no templo de Deus com simplicidade e bondade. Quando você se move na casa de Deus, faça-o com uma solenidade simples. Não carrancudo e falso piedoso, mas também não sendo um bobo infantil. Basta fazer o que deve fazer – lembrando que você está na casa de Deus, um lugar sério para um negócio sério. Quando você arrumar a credência, acender as velas, organizar os livros e se preparar para a Missa, lembre-se que as pessoas nos bancos estão observando você. Sua reverência, zelo e amor pelo que faz será notada e fará com que todo o povo adore a Deus de modo muito melhor. Então, antes da missa começar, volte para a sacristia. Vamos fazer tudo o que falta fazer, rezar e esperar que a Divina Liturgia comece.

Quando você estiver na Procissão de Entrada, lembre-se que você está guiando todo o povo à presença de Deus. A nossa pequena procissão remonta à procissão de David e os sacerdotes para dentro da cidade sagrada de Sião, ou ainda, a procissão de Nosso Senhor entrando em Jerusalém. A cruz estará erguida, e você vai andar com uma postura solene e imponente, como um verdadeiro soldado, por que você está levando todos nós à presença do Rei dos reis e Senhor dos senhores. Reflita sempre para onde você está indo naquele momento, e vá comigo para lá, com a graça de uma criança e a dignidade de um príncipe. Aonde você vai, vamos atrás.

Você é chamado a uma Cruzada. Uma cruzada de ufania por Nosso Senhor. O que significa ufania? É um sentimento, um estado de alma pelo qual a pessoa tem uma fé que não duvida de nada, um orgulho santo de servir a Deus. O Cruzado, quando ia para a Guerra, partia cheio de ufania. Ufania de ser servo de Nosso Senhor. Ufania, portanto, não é um sentimento de posse ou orgulho, mas um sentimento de profunda humildade, de se reconhecer servo.

Você, meu filho, está na Igreja Militante, uma Igreja que lutará até a consumação dos séculos, porque Ela foi posta para lutar contra o mal. Não se sinta, jamais, sozinho. Sinta esta ufania de ser filho da Igreja, de poder dizer que mesmo se todos os homens na Terra abandonassem a fé, você jamais abandonaria, e teria ao seu lado uma multidão incontável de todos os santos que vieram antes de você, e que você representa na hora da Missa. Você permanecerá firme e, na sua luta contra o mundo, dirá como antigamente os cruzados: Deus vult! Deus o quer!

Você, meu filho, é chamado a representar os santos e os anjos. É chamado a representar e defender a Santa Igreja, numa época em que se fala do progresso como contrário a Ela. Você, pelo seu portar, pelo seu falar, pelo seu agir, terá o desafio constante de enfrentar a luta. Uma luta que seguirá por toda a sua vida. A questão essencial da nossa vida é salvar a nossa alma para a eternidade. Que seja essa a nossa principal proposta e a maior preocupação de nossas vidas.

Enquanto isso, o mundo vai perdendo a fé e a confiança em si mesmo, e olhará para a segurança que você tem, olhará para a sua fé e começará a ouvir cada vez mais a voz que lhe guia, a voz da Roma Católica, guardiã da Fé Católica, a voz da Roma Eterna, mãe e mestra da sabedoria e da verdade. E assim, algo matura, algo se transforma, algo germina. Você é a semente da primavera que germina embaixo do rigoroso inverno do nosso tempo.

Quando você se sentar no presbitério, lembre-se que as ações falam mais alto que palavras. Você pode não ter muitas tarefas para fazer, mas mesmo que não faça nada, você está servindo a nosso Senhor. Simplesmente por sua presença, sua reverência, seu zelo e piedade, você vai ajudar a liderar a adoração e encorajar aqueles que você vê. Quando você tem uma tarefa para fazer, faça com simplicidade e confiança, como convém a um servo do rei. Lembre-se: Se você é desleixado e casual em sua atitude e postura, todos vão perceber isto, e você será o responsável por distrair as pessoas, tirando a atenção delas de Cristo para você, e a Missa não é sobre você é sobre Cristo.

Lembre-se de que o que fazemos na Missa é a coisa mais importante da sua vida. Todo o resto vem depois disso. “Buscai primeiro o Reino de Deus, e todo o resto vos será acrescentado”. Na missa, você vê que a beleza, a verdade e amor são três tesouros insuperáveis, e são três coisas que você não pode comprar. E o que você faz também não se pode comprar. Você não recebe pagamento algum, mas recebe uma recompensa que dinheiro nenhum pode comprar: a recompensa de saber que seu coração é reto diante de Deus, e que você passou uma hora no limiar do Céu.


Eu lhe digo, enfim: Ufania e Coragem! Vá, que Nossa Senhora sempre lhe acompanhe. Deus vult! Deus o quer! Ufania pela Igreja! Ufania por Nossa Senhora! Ufania por Cristo!!!


Texto baseado no post “What I tell my altar servers”, do padre Longenecker.

Foto: Geisa Bomfim

1 de setembro de 2016

Distância < Amizade

Ainda não me acostumei com essa saudade tão constante, e depois de meses vivenciando-a todos os dias, venho deixar meus abraços soltos em palavras que não serão lidas mas são sentidas em cada pedacinho do meu peito. Preciso dizer para o mundo que cada dia é longo demais quando não está aqui. Que a presença da sua amizade sempre foi minha fortaleza, seus conselhos refazem a minha estrutura, me orientando incessantemente como só você faz. 

A distância cala minha voz, aumenta o vazio, o silêncio e a falta de alegria. Porém foi a distância que me fez perceber o anjo presente no meu cotidiano, foi a distância que me fez valorizar cada segundo em tua companhia, foi a distância que me fez valorizar o carinhoso, humilde e fiel Pai espiritual que possuo. 
Diria mil vezes: Obrigada! Obrigada por não ter deixado os quilômetros que nos separam afetar a bela amizade construída e alicerçada na fé. Obrigada pelo carinho manifestado cada dia com mais força e intensidade. Obrigada, sobretudo, por ser você e por compartilhar comigo este amor tão puro e simples, este amor de amigo, de pastor, de Pai.
Por: Geisa Bomfim 

Vida (...)

Após longos meses sem abrir o bloco de notas ou o word em branco para organizar palavras sem sentido e fazê-las transmitir parte do interior escondido entre camadas de proteção, aqui estou mais uma vez. 
Muitas coisas aconteceram desde o primeiro mês do ano. A maioria delas não me causou felicidade ou inspiração para escrever. Pelo contrário... Substituí as palavras por lágrimas, por músicas tristes em noites de terças e quintas. Aos domingos o sorriso parecia voltar a aparecer através de um abraço apertado do qual, se pudesse, teria escolhido não sair nunca. Porém meu coração o bloqueava nas segundas feiras, me presenteando com mais uma semana triste e aparentemente interminável.

Depois de oito meses, volto para essa Central de Confusões para dizer que amadureci, forçadamente. Aprendi o valor da proximidade e a dor da distância. Cresci por escolha própria, e mesmo perdendo parte daquela inocência brilhante, a vida precisou dela e me devolveu como força e fé! Se fé não tivesse, talvez aqui não estaria. Se a fé não fosse meu ponto de paz e equilíbrio, meu coração teria se tornado cinzas incapazes de reacender. E talvez, por a fé ter dominado a única parte feliz em mim, Deus iluminou e guiou meus passos, até a vida sorrir outra vez e me oferecer alguém para chamar de...
Vida.
Por: Geisa Bomfim

21 de novembro de 2015

Nêga

O racismo me calou durante anos,
Limitou todos os meus planos,
Não deixou ver minha beleza,
Não me permitiu ser médica ou doutora,
Modelo ou professora,
Só por ter a pele negra.

Toda essa dor me trouxe resistência,
Serviu de experiência para chegar onde estou.
Pela Lei, somos todos iguais,
Calei a boca daquele velho ditador.

É que eu nasci com cabelo cacheado
Uns preferem alisado
Mas eu gosto assim
Não me incomodo que me chamem de nêga
Porque a minha pele é preta
Eu não tenho vergonha de mim

Sentimos orgulho quando ganhamos algo,
Quando somos graduados, conquistamos uma mulher.
Eu sinto orgulho da minha fé, da minha vida,
De ser uma fera ferida que ainda está de pé.

Você tem dentro de você a força pra mudar o mundo,
Não permita que te digam o que fazer.
Seus sonhos é o que tem de mais profundo,
Lute pela sua alma, sua cor, pelo seu ser.

Apesar de todo esse preconceito,
Não troco o meu reggae ou a minha religião,
Busco para minha vida o que mereço,
E o que vem é de verdade, vem do coração.

Por: Geisa Bomfim

Que Mundo é Esse?

"Um dia eu ainda vou viver todos os sonhos que eu idealizo nas minhas singelas noites em claro – sussurrou ela. Melancólica, um pouco neurótica e pessimista. Ela se queixava da vida, mas sabia que no fundo, não tinha coisa melhor do que viver. E viver tudo aquilo que cismava em invadir os seus pensamentos em dias nublados, fazendo com que, ela sonhasse de olhos abertos. Mas, era sonhando que ela vivia. Pensativa, ela buscava um refúgio em um canto qualquer, algo que pudesse acalentar seu coração, que tinha o vício em espalhar sentimentos por onde passava como panfletos entregues nas ruas da cidade. Talvez, ou quem sabe uma das maiores certezas, era que o problema do choro abafado no final do dia, dos olhos inchados e do coração calejado seja a intensidade – ela disse baixinho, quase como um suspiro. Costumava se rotular como uma pessoa cheia de vazio, que chegava a transbordar. Lá fora chovia, mas o temporal costumava ser dentro dela, como uma tempestade cheia de raios. Ela tinha a leveza de uma flor, mas no interior possuía uma granada que poderia explodir a qualquer momento. Dentro dela existiam vontades que eram capazes de sair saltitando, e ir à busca de se realizar imediatamente cada uma delas, desde as mais mesquinhas, até as mais complexas de acontecer. Carregar o peso dos outros nas costas tinha se tornado um fardo que ela não queria mais segurar, já bastava ter que levar constantemente toda aquela solidão aninhada dentro de si mesma, ela ainda tinha que possuir a qualidade que acabou se tornando um defeito por não saber dosar a forma como ela consegue se importar com tudo ao seu redor. E mesmo assim, ela conseguia abraçar a solidão com ternura e fazia a sua própria companhia naquelas noites frias. Conviver com ela mesma já era uma prova de resistência, habilidade e paciência, pois sabia que colocar profundidade, nem que fosse uma gota no oceano, conseguia fazer um imenso estrago. Daqueles que pode devastar tudo em apenas segundos. Mas, se ao menos existisse um lugar seguro para ela se abrigar quando o mundo resolvesse decepcioná-la seria o suficiente para a solidão se dissolver aos poucos como um comprimido em um copo d’água. Devaneios como esse eram desejos escondidos que, vez ou outra vinha à tona em sua mente tão confusa e distorcida pelo caos que habitava nos pensamentos que chegavam em tardes vazias e ensolaradas. Falava aos quatro ventos da sua necessidade, quase uma urgência, de querer ter um lugar preferido no mundo, ou quem sabe, ser o mundo de alguém." 
Por- Nathalia Velozo